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Meia década do colapso: Manaus relembra crise do oxigênio marcada por mortes e falta de culpados

O dia 14 de janeiro de 2021 ficou marcado pelo esgotamento das reservas de oxigênio nos hospitais públicos de Manaus durante a segunda onda da Covid-19. De acordo com os registros históricos, o consumo diário do insumo saltou de uma média de 17 mil metros cúbicos para impressionantes 76,5 mil metros cúbicos no pico das internações. Por esse motivo, as empresas fornecedoras como White Martins, Carbox e Nitron não conseguiram suprir o déficit de 48,3 mil metros cúbicos diários. Por consequência desse desequilíbrio, unidades como o SPA da Alvorada fecharam as portas e o Hospital João Lúcio operou em condições comparadas a hospitais de campanha de guerra. Assim, a falta de planejamento resultou na morte por asfixia de pelo menos 60 pessoas em todo o estado.

A técnica de enfermagem Cintia Elisa relembrou que a equipe precisou reduzir a oferta de oxigênio dos pacientes para que todos tivessem uma chance mínima de respirar. De acordo com o relato da profissional, o balanço sobre quem receberia o insumo era feito sob extrema pressão psicológica enquanto o sistema colapsava. Por esse motivo, o médico Juan Carlos Villagomez vivenciou o trauma de perder a própria irmã por falta de ar enquanto tentava salvar vidas no Hospital João Lúcio. Por consequência do pânico generalizado, familiares de pacientes formaram filas em fornecedores privados e transportaram cilindros em veículos particulares para tentar evitar o óbito de parentes internados. Assim, a transferência aérea de mais de 500 pacientes para outros estados tornou-se a única medida paliativa para aliviar a demanda local.

Alertas ignorados e a estrutura da omissão estatal

Documentos técnicos apontam que a White Martins emitiu alertas oficiais sobre o crescimento exponencial do consumo três dias antes da ruptura total dos estoques. De acordo com os dados da Fundação de Vigilância em Saúde, o mês de janeiro de 2021 acumulou mais de 64 mil casos confirmados e milhares de mortes em Manaus. Por esse motivo, o então representante do Ministério da Saúde, coronel Franco Duarte, justificou a crise pelo alto consumo em leitos clínicos, gerando fortes críticas da opinião pública. Por consequência da demora em agir, as aeronaves da Força Aérea Brasileira com suprimentos só ganharam intensidade após a tragédia já ter se consolidado nas enfermarias. Assim, a falta de uma resposta coordenada entre os governos federal, estadual e municipal agravou o cenário de asfixia coletiva.

As investigações do Ministério Público e da Defensoria Pública do Estado reforçam que a tragédia poderia ter sido evitada com medidas preventivas adequadas. De acordo com as ações ajuizadas, existe um pedido de indenização de 4 bilhões de reais contra a União, o Estado e a Prefeitura por danos sociais e morais coletivos. Por esse motivo, a justiça brasileira já concedeu reparações individuais, como o caso de uma família que recebeu 1,4 milhão de reais em 2023. Por outro lado, o MPF acionou recentemente a Abin para obter relatórios que provam que o governo tinha ciência do risco iminente de desabastecimento. Assim, o esforço jurídico atual foca em garantir que a memória das vítimas seja preservada através de memoriais e programas de apoio aos sobreviventes.

Memória e a busca por responsabilidade em 2026

Atualmente, a praça Anjo da Esperança, inaugurada no cemitério Nossa Senhora Aparecida, serve como o principal tributo físico aos profissionais de saúde e às vítimas da pandemia. De acordo com as famílias, o espaço representa a dor de quem perdeu entes queridos sem a chance de um tratamento digno. Por esse motivo, a cobrança pela responsabilização criminal dos gestores da época continua sendo um tema central nos debates políticos do Amazonas. Por consequência do tempo transcorrido, o sentimento de impunidade ainda prevalece, já que ninguém foi formalmente condenado pelas mortes por asfixia. Assim, a sociedade civil mantém a pressão por transparência e pela entrega de todos os documentos que anteciparam o colapso do sistema de saúde.

O legado traumático daquele 14 de janeiro impulsiona novas frentes de investigação sobre a gestão de recursos durante a crise sanitária. De acordo com os órgãos de controle, a auditoria sobre os contratos de oxigênio e a logística de distribuição permanece ativa em 2026. Por esse motivo, o depoimento de médicos e enfermeiros que presenciaram a falta do insumo é fundamental para a conclusão dos inquéritos civis e criminais. Por outro lado, a estrutura hospitalar de Manaus passou por readequações para evitar que a dependência de fornecedores externos cause novos riscos à população. Portanto, a meia década da crise do oxigênio é um lembrete doloroso sobre a importância da gestão técnica e ética na administração da saúde pública.

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